Juzao

É engraçado quando você alcança uma certa idade e adquire o mesmo discurso das pessoas que você abominava quando era adolescente. Há 10 anos, eu torcia o nariz quando…

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a minha mãe me obrigava a fazer aquelas coisas chatas, como ir em almoços de família, visitar minha avó ou até mesmo ficar em casa pra curtir meu pai em um domingo, quando ele havia acabado de chegar de viagem. E no sábado à noite, acontecia uma encenação de novela só pra eu conseguir a permissão da minha mãe pra ir em uma festa. E mesmo quando conseguia, tinha que estar em casa cedo. Ah, mãe, que saco. Quero sair com as minhas amigas. Você não me entende. Eu achava a minha vida a pior vida do mundo. Contava os minutos pra sair logo de casa e ir morar sozinha de uma vez. Não via a hora de poder sair sem dar satisfação pra ninguém e voltar três dias depois. Sabe por que? Porque eu estaria sozinha.Depois de três longos anos, esse dia chegou. Eu iria morar sozinha pra fazer faculdade fora da minha cidade. Não teria que ficar em casa assistindo filme com a minha mãe. Não precisaria mais cuidar da minha irmãzinha. Visitar a avó não seria mais uma obrigação. Sabe por que? Porque eu estaria sozinha. Desarrumei minhas malas e saí, sem ter hora pra voltar. E assim se repetiu por mais algum tempo. Foi aí que eu notei que as festas só duravam algumas horas, os amigos não estavam comigo todos os dias e a comida não se materializava sozinha no fogão. Até que um dia eu cheguei em casa, sentei na sala e bateu um vazio. Eu chorei. Sabe por que? Porque eu estava sozinha. Naquele momento, eu vi o quanto eu era imatura e não dava valor pra companhia dos meus pais. Aquelas duas pessoinhas que deram duro pra me dar tudo o que eu tinha (inclusive, aquele momento sozinha) nunca tiveram a sua presença valorizada por mim. Tudo era visto por mim como uma obrigação, uma chateação, um saco ao lado deles. Eu tive que ficar verdadeiramente sozinha pra ver o quanto eles faziam falta. Mas aí já era tarde demais e voltar atrás da solidão que eu havia recém conquistado seria fraqueza da minha parte. Então decidi seguir em frente. Sozinha. Se eu pudesse mudar um dia na minha vida, um dia só seria pouco. Eu gostaria de selecionar num calendário todos aqueles dias em que eu não soube curtir o fato de ter meus pais ao meu lado e viveria de novo cada um deles. Minutinho por minutinho. E se pudesse, viveria de novo cada um desses dias quantas vezes fosse possível. Sabe por que? Porque a única certeza que a gente tem na vida é que os nossos pais vão morrer um dia. Hoje, quando eles estão comigo, eu aproveito cada segundo, como se fosse o último quadradinho de uma barra de chocolate. Não é tão frequente como eu gostaria, mas é o suficiente pra eu enxergar o quanto deveria ter aproveitado mais quando eu acordava com o cheirinho do café da minha mãe. @juzao